16 de julho de 2024
A sempre sorridente Dilma Rousseff não retrata a gravidade do momento no país, que poderá enfrentar ‘tempos mais difíceis’  Foto: Roberto Stuckert Filho/Presidência da República
A sempre sorridente Dilma Rousseff não retrata a gravidade do momento no país, que poderá enfrentar ‘tempos mais difíceis’
Foto: Roberto Stuckert Filho/Presidência da República

O atual momento brasileiro é comparável a um “filme de terror sem fim” devido às crises política e econômica, disse o jornal britânico Financial Times em editorial na edição de ontem.
No texto, intitulado “Recessão e corrupção: a podridão crescente no Brasil”, o principal diário de economia e finanças da Grã-Bretanha diz que “incompetência, arrogância e corrupção quebraram a magia” do país, que poderá enfrentar “tempos mais difíceis.”
Segundo o FT, “a maior razão” da crise enfrentada pela presidente Dilma Rousseff seria o escândalo de corrupção na Petrobras, desvendada pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal. Dezenas de políticos e empresários são investigados sob suspeita de participação no esquema de desvio na estatal. “O Brasil hoje tem sido comparado a um filme de terror sem fim”, diz.
Dilma foi presidente do Conselho de Administração da Petrobras entre 2003 e 2010, quando acredita-se que parte do esquema tenha sido realizado, mas nega conhecimento das irregularidades e não foi citada por delatores que cooperam com as investigações. “Poucos acreditam que Dilma seja corrupta, mas isso não significa que ela esteja segura”, diz o jornal, citando os crescentes pedidos pelo impeachment da presidente.
Há suspeita de que parte do dinheiro desviado da Petrobras possa ter sido usado no financiamento de sua campanha eleitoral. Além disso, diz o jornal, a presidente enfrenta suspeitas sobre contas de seu governo, em manobras que ficaram conhecidas como “pedaladas fiscais.” “Cada um (dos casos) poderia ser suficiente para impeachment”, diz o texto, que diz que a saída da presidente “ainda parece improvável.”
O jornal cita, também, a investigação do Ministério Público sobre a suspeita de tráfico de influência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que teria ajudado a construtora Odebrecht a conseguir contratos no exterior – que também é investigada pela Lava Jato – e o rompimento do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, com o governo após ter sido citado por um delator na investigação da Petrobras.
“Até agora, políticos em Brasília tem preferido que Dilma siga no poder e assuma os problemas do país. Mas este cálculo pode mudar para tentarem salvar a própria pele”, diz o jornal.
Poderosos acima da lei vigente

O FT escreve, no entanto, que as investigações “demonstram a força das instituições democráticas do Brasil, “um país em que os poderosos se colocam acima da lei”. Como exemplo, cita a prisão de Marcelo Odebrecht, presidente da construtora.
“Dilma enfrenta três anos solitários como presidente. Brasileiros são pragmáticos, então do pior cenário de impeachment caótico deve ser evitado. Mesmo assim, os mercados começaram a precificar o risco. Pode ser que tempos mais difíceis estejam adiante do Brasil”, diz.
Além das questões políticas, o jornal menciona a situação econômica do país – cujo Banco Central estima retração de mais de 1% neste ano – e elogia Dilma por ter “revertido sua fracassada ‘nova matriz econômica'” do primeiro mandato.
O diário cita o aumento dos juros para combater a inflação e os esforços para conter gastos públicos, medidas “necessárias mas dolorosas” que reduziram salários, aumentaram o desemprego, afetaram a confiança de investidores e “demoliram” a popularidade da presidente para o nível mais baixo da história.
(Fonte: BBC Brasil).
Moro dá mais quatro dias para
defesa explicar anotações

Defesa de Marcelo Odebrecht terá de esclarecer anotações comprometedoras no celular do executivo Foto: Divulgação/PF
Defesa de Marcelo Odebrecht terá de esclarecer anotações comprometedoras no celular do executivo
Foto: Divulgação/PF

O juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Operação Lava Jato, concedeu mais quatro dias para a defesa do presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, explicar as anotações que aparecem no celular do executivo. O prazo se encerrava ontem.
As anotações no aparelho do executivo levantaram suspeitas da Polícia Federal. Odebrecht mencionou termos como “dissidentes PF” e “trabalhar para parar/anular” a investigação. “Defiro o requerido, estendendo o prazo para 27/07, determinou Moro.
Na petição encaminhada à Justiça Federal, os advogados Dora Cavalcanti e Augusto de Arruda Botelho, que defendem Marcelo Odebrecht, alegam não tinham conhecimento das anotações que estavam arquivadas no aparelho pessoal do executivo. “O prazo assinalado, a toda evidência, não pode ser cumprido, na medida em que os esclarecimentos a serem prestados versam sobre anotações que estariam armazenadas em telefone do peticionário, e das quais a defesa jamais teve conhecimento – razão pela qual, por óbvio, delas não pode tratar sem no mínimo antes conversar com Marcelo”, afirmam os advogados. Para a Polícia Federal, há indícios de que o empresário, preso desde 19 de junho, lançou mão de uma estratégia de confrontar as investigações da Lava Jato, buscando criar “obstáculos” e “cortinas de fumaça”, que contaria com “policiais federais dissidentes”, dupla postura perante a opinião pública, apoio estratégico de integrantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e ataques às apurações internas da Petrobrás.
“O trecho mais perturbador é a referência à utilização de ‘dissidentes PF’ junto com o trecho ‘trabalhar para parar/anular’ a investigação”, alerta o juiz da Lava Jato no despacho em que intima a defesa do empreiteiro. Para Moro, “sem embargo do direito da defesa de questionar juridicamente a investigação ou a persecução penal, a menção a ‘dissidentes PF’ coloca uma sombra sobre o significado da anotação”.