{"id":224971,"date":"2026-03-22T12:40:01","date_gmt":"2026-03-22T15:40:01","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/?p=224971"},"modified":"2026-03-22T12:40:02","modified_gmt":"2026-03-22T15:40:02","slug":"duas-ilhas-dois-destinos-uma-licao-sobre-escolhas-institucionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/duas-ilhas-dois-destinos-uma-licao-sobre-escolhas-institucionais\/","title":{"rendered":"Duas ilhas, dois destinos: Uma li\u00e7\u00e3o sobre escolhas institucionais"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n\n<p>*<strong>Jorge Gama<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria contempor\u00e2nea oferece, por vezes, compara\u00e7\u00f5es t\u00e3o claras que dispensam esfor\u00e7o interpretativo. Cuba e Singapura s\u00e3o dois desses casos. Ilhas, com limita\u00e7\u00f5es territoriais evidentes, sem grandes reservas naturais e submetidas, em momentos decisivos, a rupturas institucionais profundas \u2014 e que, ainda assim, produziram resultados radicalmente distintos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os marcos fundadores s\u00e3o conhecidos e pr\u00f3ximos no tempo. De um lado, a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, consolidada eym <strong>1\u00ba de janeiro de 1959<\/strong>, que redefiniu integralmente o Estado cubano. De outro, a Independ\u00eancia de Singapura, proclamada em <strong>9 de agosto de 1965<\/strong>, dando origem a uma nova na\u00e7\u00e3o soberana. Entre um evento e outro, apenas seis anos \u2014 um intervalo historicamente insuficiente para explicar, por si s\u00f3, a dist\u00e2ncia que hoje separa os dois pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a escala territorial ou populacional que explica essa diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba possui cerca de <strong>110.860 km\u00b2<\/strong> de territ\u00f3rio e uma popula\u00e7\u00e3o aproximada de <strong>11 milh\u00f5es de habitantes<\/strong>. Singapura, por sua vez, \u00e9 uma cidade-Estado com apenas <strong>728 km\u00b2<\/strong> e cerca de <strong>5,9 milh\u00f5es de habitantes<\/strong>. Ou seja, Cuba \u00e9 mais de <strong>150 vezes maior em territ\u00f3rio<\/strong> e possui quase o <strong>dobro da popula\u00e7\u00e3o<\/strong>. Ainda assim, apresenta desempenho inferior em praticamente todos os indicadores internacionais relevantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambas partiram de condi\u00e7\u00f5es compar\u00e1veis em aspectos essenciais. S\u00e3o ilhas, sem hinterl\u00e2ndia continental, e sempre dependeram \u2014 em maior ou menor grau \u2014 de rela\u00e7\u00f5es externas. Ambas enfrentaram o desafio de estruturar suas economias a partir de limita\u00e7\u00f5es objetivas. A diferen\u00e7a, portanto, n\u00e3o est\u00e1 na geografia, mas nas escolhas institucionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba optou por um modelo centralizado, de economia planificada e controle pol\u00edtico r\u00edgido. Ao longo de sua trajet\u00f3ria, estruturou-se sobre uma depend\u00eancia externa concentrada \u2014 primeiro com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, depois com a Venezuela. Essa depend\u00eancia, longe de ser administrada como estrat\u00e9gia de inser\u00e7\u00e3o internacional, consolidou uma vulnerabilidade persistente. Hoje, o pa\u00eds enfrenta escassez de alimentos, crises energ\u00e9ticas recorrentes, deteriora\u00e7\u00e3o urbana acelerada e um ambiente institucional marcado por restri\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e registros de presos por motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Singapura, ao contr\u00e1rio, partiu de uma condi\u00e7\u00e3o ainda mais limitada em termos de recursos naturais. Sob a lideran\u00e7a de Lee Kuan Yew, adotou um modelo pragm\u00e1tico e orientado para resultados. Transformou sua depend\u00eancia externa em vantagem competitiva, integrando-se intensamente ao com\u00e9rcio global, atraindo investimentos e construindo um ambiente de elevada seguran\u00e7a jur\u00eddica e efici\u00eancia administrativa. O Estado n\u00e3o se retraiu \u2014 organizou-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados s\u00e3o inequ\u00edvocos.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto Cuba enfrenta limita\u00e7\u00f5es estruturais que impactam diretamente o cotidiano de sua popula\u00e7\u00e3o, Singapura alcan\u00e7ou um dos mais altos n\u00edveis de renda e qualidade de vida do mundo. Onde h\u00e1 escassez de um lado, h\u00e1 abund\u00e2ncia planejada do outro. Onde h\u00e1 deteriora\u00e7\u00e3o, h\u00e1 infraestrutura. Onde h\u00e1 fechamento, h\u00e1 integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa n\u00e3o \u00e9 uma compara\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, mas factual.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de ignorar conquistas sociais de Cuba, especialmente em sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, nem de idealizar Singapura, que mant\u00e9m um sistema pol\u00edtico com controles institucionais rigorosos. Trata-se, sim, de reconhecer a diferen\u00e7a entre modelos que produzem escassez e modelos que produzem prosperidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A li\u00e7\u00e3o \u00e9 direta.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 o territ\u00f3rio. N\u00e3o \u00e9 a popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o insular. Tampouco \u00e9 a depend\u00eancia externa, que, em ambos os casos, existiu. O que define o destino de uma na\u00e7\u00e3o \u00e9 a qualidade de suas institui\u00e7\u00f5es e a racionalidade das escolhas que orientam o Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba e Singapura demonstram, com clareza rara, que o futuro n\u00e3o \u00e9 determinado pelas circunst\u00e2ncias iniciais, mas pelas decis\u00f5es pol\u00edticas que se acumulam ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 nelas \u2014 e apenas nelas \u2014 que reside a diferen\u00e7a entre a estagna\u00e7\u00e3o e o sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jorge Gama<\/strong> \u00e9 Advogado \u00e9 ex- Deputado Federal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Jorge Gama A hist\u00f3ria contempor\u00e2nea oferece, por vezes, compara\u00e7\u00f5es t\u00e3o claras que dispensam esfor\u00e7o interpretativo. Cuba e Singapura s\u00e3o dois desses casos. 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