{"id":43381,"date":"2017-03-27T22:01:21","date_gmt":"2017-03-28T01:01:21","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/?p=43381"},"modified":"2017-03-27T22:01:21","modified_gmt":"2017-03-28T01:01:21","slug":"1917-e-o-mundo-mudou-para-pior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/1917-e-o-mundo-mudou-para-pior\/","title":{"rendered":"1917. E o mundo mudou para pior"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p>*Percival Puggina<\/p>\n<p>Se o czarismo n\u00e3o dava origem ao melhor dos mundos, o movimento revolucion\u00e1rio que mudou o regime em 1917 causou \u00e0 sociedade russa um dano incalcul\u00e1vel. E n\u00e3o se deu por cumprido. Levado pelo imperialismo russo, o comunismo viria a estender fronteiras, impondo-se sobre na\u00e7\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o livres e irradiando genoc\u00eddio, mis\u00e9ria e servid\u00e3o. O simples registro ou narrativa dos fatos que se desenrolaram a partir do vel\u00f3rio da R\u00fassia czarista n\u00e3o pode silenciar ante o simult\u00e2neo surgimento, ali e ent\u00e3o, do primeiro, modelar e mais letal dos coletivismos totalit\u00e1rios que infernizaram o s\u00e9culo 20. O nazismo e o fascismo aprenderam do comunismo. Dever\u00edamos estar falando mais sobre isso, sempre que mencionados os fatos ocorridos \u00e0s margens frias do Rio Neva, h\u00e1 exatos cem anos.<br \/>\nAs mulheres e os grevistas que a elas se juntaram para marchar nas ruas de Petrogrado, no dia 8 de mar\u00e7o daquele ano fat\u00eddico, pedindo p\u00e3o e paz, cantavam a Marselhesa e n\u00e3o podiam imaginar a intensidade das for\u00e7as que desencadeavam. Talvez sequer soubessem que reproduziam o mesmo hino entoado na tomada do Pal\u00e1cio das Tulherias, quando, nos desdobramentos da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, se liberavam as for\u00e7as do Terror e a guilhotina fazia rolar tr\u00eas cabe\u00e7as a cada dois minutos. A caixa de Pandora aberta em Petrogrado seria infinitamente mais maligna. Mas \u00e9 bom relembrarmos: para cada Robespierre ou Saint-Just, a Revolu\u00e7\u00e3o Russa iria, ao longo das d\u00e9cadas seguintes, mundo afora, disponibilizar multid\u00f5es de sanguin\u00e1rios ditadores e monstruosos agentes pol\u00edticos. Gera\u00e7\u00f5es de revolucion\u00e1rios e intelectuais, partidos e militantes se sucederiam para disseminar uma ideologia perversa na concep\u00e7\u00e3o e comprovadamente ainda mais perversa na execu\u00e7\u00e3o, em todas as suas experi\u00eancias hist\u00f3ricas.<br \/>\nTalvez convenha, aqui, lembrar o velho Winston Churchill, porque \u00e9 sempre uma sauda\u00e7\u00e3o \u00e0 intelig\u00eancia faz\u00ea-lo. Enquanto a chapa esquentava em Petrogrado, naquele mar\u00e7o de 1917, Lenin estava exilado na Su\u00ed\u00e7a. O curso dos eventos muito lhe agradava, mas n\u00e3o podia comand\u00e1-los atrav\u00e9s, apenas, das cartas que escrevia. Ele precisava chegar ao palco. H\u00e1bil que era, conseguiu negociar com os alem\u00e3es autoriza\u00e7\u00e3o para cruzar o pa\u00eds em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Su\u00e9cia. Foram oito dias em companhia de outros camaradas, dentro de trem blindado, at\u00e9 Estocolmo e, dali, para a Finl\u00e2ndia e Petrogrado. Churchill, referindo-se a essa inusitada travessia de um grupo de cidad\u00e3os russos, sendo a R\u00fassia advers\u00e1ria da Alemanha na guerra, comentou que tal viagem se dera &#8220;num vag\u00e3o lacrado como bacilo de peste&#8221;. A frase e o lacre se justificavam plenamente.<br \/>\nPara Lenin, a I Guerra Mundial era um conflito entre interesses imperialistas com o qual nada tinha a ver. Interessava-o aproveitar as consequ\u00eancias da guerra na vida das pessoas para fazer eclodir o que via como fundamental &#8211; o embate entre as classes sociais com vistas \u00e0 ditadura do proletariado. Foi com tal vis\u00e3o que convenceu os alem\u00e3es a lhe darem passagem e foi com essa perspectiva que chegou ao poder supremo no final do mesmo ano. E sobreveio o Terror. E nasceu o organismo dele encarregado, a Cheka, que viria a inspirar, menos de 20 anos depois, as SA e as SS nazistas, e os camicie nere fascistas. Algu\u00e9m dir\u00e1 que a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 lugar de muito bons modos, que nunca foi domic\u00edlio da verdade e que, em maior ou menor grau, a repress\u00e3o, ativa ou inativa, est\u00e1 sempre em seu estoque de meios.<br \/>\nO que s\u00f3 o coletivismo comunista e seus dois filhotes \u2014 nazismo e fascismo \u2014 fazem, por\u00e9m, \u00e9 uma pol\u00edtica em que os advers\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o pessoas ou fac\u00e7\u00f5es divergentes. S\u00e3o estes tamb\u00e9m, mas, principalmente, s\u00e3o grupos sociais inteiros pass\u00edveis de elimina\u00e7\u00e3o: burgueses, propriet\u00e1rios, etnias, nacionalidades. E tudo come\u00e7ou h\u00e1 exatos cem anos, quando o mundo conheceu a novidade pol\u00edtica mais nociva da contemporaneidade.<br \/>\n*Publicado originalmente no jornal Zero Hora de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>*Percival Puggina (72), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, \u00e9 arquiteto, empres\u00e1rio e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no pa\u00eds. Autor de Cr\u00f4nicas contra o totalitarismo; Cuba, a trag\u00e9dia da utopia; Pombas e Gavi\u00f5es; A tomada do Brasil. integrante do grupo Pensar+.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Percival Puggina Se o czarismo n\u00e3o dava origem ao melhor dos mundos, o movimento revolucion\u00e1rio que mudou o regime em 1917 causou \u00e0 sociedade russa um dano incalcul\u00e1vel. E n\u00e3o se deu por cumprido. Levado pelo imperialismo russo, o comunismo viria a estender fronteiras, impondo-se sobre na\u00e7\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o livres e irradiando genoc\u00eddio, mis\u00e9ria e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-43381","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43381","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43381"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43381\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43382,"href":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43381\/revisions\/43382"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43381"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43381"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43381"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}