{"id":54810,"date":"2017-07-24T21:42:29","date_gmt":"2017-07-25T00:42:29","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/?p=54810"},"modified":"2017-07-24T21:42:29","modified_gmt":"2017-07-25T00:42:29","slug":"os-livros-de-historia-e-seus-leitores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/os-livros-de-historia-e-seus-leitores\/","title":{"rendered":"Os livros de Hist\u00f3ria e seus leitores"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p>*Daniel Medeiros<\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-54811 size-medium alignleft\" src=\"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2017\/07\/170724-H42-237x300.jpg\" alt=\"\" width=\"237\" height=\"300\" \/>Certa vez, fui visitar o t\u00famulo do rei D. Pedro I (foto), no mosteiro de Alcoba\u00e7a, pr\u00f3ximo a Lisboa. Atr\u00e1s de mim, um casal de brasileiros trocava entre si as seguintes impress\u00f5es sobre o personagem hist\u00f3rico: \u201c\u00c9 o nosso D. Pedro?\u201d \u201cSim \u2013 disse o outro \u2013 o do Descobrimento\u201d. \u00c9 fato que me diverti com esse di\u00e1logo e o contei para professores amigos meus. \u201cImagina, olha o n\u00edvel dos caras\u201d, devo ter dito uma ou duas vezes. Que bobo esse tipo de coment\u00e1rio. O meu. Afinal, que import\u00e2ncia isso tem? Por que \u00e9 necess\u00e1rio conhecer esse tipo de passado? Creio que se h\u00e1 alguma import\u00e2ncia em conhecer o passado \u00e9 para que esse conhecimento nos ajude a superar algo que est\u00e1 aqui, no presente. Por isso, saber detalhes e nomes, lugares e batalhas pode ser t\u00e3o in\u00fatil quanto repetir de mem\u00f3ria a escala\u00e7\u00e3o da sele\u00e7\u00e3o brasileira de 1954.<br \/>\nA Hist\u00f3ria que merece ser conhecida \u00e9 justamente aquela que \u00e9 despertada pelas perguntas que fazemos no presente. O passado deve ser sempre acessado para ajudar a entender o que nos incomoda, o que n\u00e3o compreendemos a respeito do que nos cerca. Por exemplo: por que temos uma educa\u00e7\u00e3o com qualidade t\u00e3o ruim? Por que nossa sa\u00fade p\u00fablica \u00e9 t\u00e3o prec\u00e1ria? Por que n\u00e3o exploramos mais as ferrovias e hidrovias? Por que somos uma Federa\u00e7\u00e3o t\u00e3o pouco federativa? Por que matamos tanto no tr\u00e2nsito? Por que somos um pa\u00eds mesti\u00e7o t\u00e3o preconceituoso? Por que mantemos o nome de ditadores nas pra\u00e7as e ruas? Por que acreditamos que um monarca que manteve a escravid\u00e3o durante 48 de seus 49 anos de reinado foi t\u00e3o bom? Perguntas, perguntas. Esse \u00e9 o passe-livre para o passado. E isso determina a sua import\u00e2ncia.<br \/>\nLogo, se h\u00e1 algo que \u00e9 preciso ensinar nas aulas de Hist\u00f3ria, para as crian\u00e7as e para os jovens, \u00e9 sobre fazer perguntas. A passividade que muitos expressam diante da realidade que nos cerca, como se tudo o que ocorre fosse um dado, algo natural &#8211; como diria o poeta -, \u201ceis o cad\u00e1ver\u201d. \u00c9 a\u00ed, no despertar para o car\u00e1ter contingente do nosso presente e sua possibilidade de ser diferente, \u00e9 que est\u00e1 o jogo para ser jogado. E urgentemente. Se n\u00e3o h\u00e1 questionamento, a Hist\u00f3ria n\u00e3o passa de anedota, curiosidade, conversa de sal\u00e3o. Divertida e f\u00fatil. Ou pior, panflet\u00e1ria e unidirecional. E, nesses casos, n\u00e3o adianta o professor afirmar que s\u00e3o os \u201cjovens que n\u00e3o se importam com mais nada\u201d. Primeiro, porque n\u00e3o \u00e9 verdade. Os jovens, via de regra, n\u00e3o sabem \u00e9 como expressar suas decep\u00e7\u00f5es diante das coisas, ou o fazem usando os recursos que disp\u00f5em (o que facilita a muitos professores querer aparelha-los, doutrin\u00e1-los). Cabe aos mais velhos, isso sim, oferecer repert\u00f3rios para viabilizar a constru\u00e7\u00e3o de novos di\u00e1logos e discursos. E o ponto de partida para isso \u00e9, sem d\u00favida, contextualizar os fatos, desnaturaliz\u00e1-los, historiciz\u00e1-los, devolver a eles a \u201ccauda longa\u201d que a falta de interesse e o esp\u00edrito de detetive impede, muitas vezes, que vejamos e compreendamos.<br \/>\nOs livros de Hist\u00f3ria n\u00e3o deveriam fazer muitas afirma\u00e7\u00f5es. Deveriam fazer muitas perguntas. E oferecer muitas pistas. M\u00faltiplas, diversas perspectivas sobre os fatos, ind\u00edcios sobre esses acontecimentos que n\u00e3o podemos mais reviver, mas que podem nos ajudar a compreender melhor o momento no qual vivemos e como podemos enfrent\u00e1-lo, modificando-o, preservando-o. In\u00eas \u00e9 morta (pobre D. Pedro!), mas h\u00e1 tempo para que a Hist\u00f3ria sirva o presente como companheira na jornada por um pa\u00eds e uma sociedade melhores. N\u00e3o adianta bons livros sem bons leitores. E bons leitores surgem com bons livros. Temos, portanto, imensa responsabilidade. E muito trabalho pela frente.<\/p>\n<p>*Daniel Medeiros \u00e9 doutor em Educa\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica e professor no Curso Positivo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Daniel Medeiros Certa vez, fui visitar o t\u00famulo do rei D. Pedro I (foto), no mosteiro de Alcoba\u00e7a, pr\u00f3ximo a Lisboa. 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