{"id":57583,"date":"2017-08-21T10:45:29","date_gmt":"2017-08-21T13:45:29","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/?p=57583"},"modified":"2017-08-21T10:45:29","modified_gmt":"2017-08-21T13:45:29","slug":"idosa-vitima-de-intolerancia-e-apedrejada-por-vizinha-em-nova-iguacu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/idosa-vitima-de-intolerancia-e-apedrejada-por-vizinha-em-nova-iguacu\/","title":{"rendered":"Idosa v\u00edtima de intoler\u00e2ncia \u00e9 apedrejada por vizinha em Nova igua\u00e7u"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-57584 alignleft\" src=\"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/wp-content\/uploads\/2017\/08\/h4-4-e1503323105521-300x211.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"211\" \/>A candomblecista Maria da Concei\u00e7\u00e3o Cerqueira da Silva, de 65 anos, alegou ter sido agredida por uma vizinha devido \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa, em Nova Igua\u00e7u, mas o caso foi registrado apenas como les\u00e3o corporal na 58\u00aa DP (Posse). Segundo a filha dela, uma jovem de cerca de 25 anos arremessou uma pedra de quase dois quilos, ferindo a idosa no rosto e no bra\u00e7o. Concei\u00e7\u00e3o foi socorrida no Hospital Geral de Nova Igua\u00e7u (HGNI), onde levou pontos na testa e na boca. Um advogado auxilia a aposentada, com o apoio da Comiss\u00e3o de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa (CCIR).<\/p>\n<p>\u201cPor que n\u00e3o registraram o caso como deveriam? Por que um caso desses \u00e9 registrado apenas como les\u00e3o corporal?\u201d, questionou Eliane Nascimento da Silva, de 42 anos, filha da v\u00edtima, ressaltando que a agressora discrimina sua m\u00e3e devido \u00e0 religi\u00e3o que ela pratica, o que configuraria o epis\u00f3dio como intoler\u00e2ncia religiosa. O advogado Gustavo Proen\u00e7a assumiu o caso de Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eliane, por ser umbandista, afirmou n\u00e3o demonstrar publicamente tanto suas cren\u00e7as, diferentemente da m\u00e3e, por tamb\u00e9m sofrer com o preconceito e temer pela seguran\u00e7a de sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cVivo na minha casa como se vivesse dentro de uma cadeia. H\u00e1 anos n\u00e3o sei o que \u00e9 sentar na minha cal\u00e7ada e passear com o meu cachorro. Quando saio, me cercam, fazem piadas. Eu ficava na minha, com receio, mais com medo de fazerem algo com minha m\u00e3e, comigo ou com a minha filha\u201d, contou Eliane, acrescentando ainda que sua m\u00e3e n\u00e3o tem os mesmos receios, pois costuma dizer &#8220;Se eu tiver que sair de branco com as minhas guias, eu saio&#8221;.<\/p>\n<p>Apesar disso, a aposentada instalou h\u00e1 quase dois anos c\u00e2meras de seguran\u00e7a em sua casa com o objetivo de afugentar agressores porque comumente sofre com a a\u00e7\u00e3o de pessoas que n\u00e3o a aceitam. A agress\u00e3o da tarde da \u00faltima sexta-feira, contudo, n\u00e3o foi captada pelo sistema de seguran\u00e7a, pois ela havia sa\u00eddo de casa para ir \u00e0 mercearia comprar um isqueiro. Distante uns 100 metros, Concei\u00e7\u00e3o foi abordada, por meio de xingamentos, como &#8220;l\u00e1 vem essa velha macumbeira. Hoje eu acabo com ela&#8221; e, ent\u00e3o, ferida com uma pedra de dois quilos.<\/p>\n<p>De acordo com Eliane, ela s\u00f3 n\u00e3o ficou em um estado pior porque colocou o bra\u00e7o esquerdo na frente do rosto no momento em que a pedra teria sido atirada em sua dire\u00e7\u00e3o. Ela disse ainda que sua m\u00e3e chegou em casa &#8220;esvaindo em sangue&#8221; e seu pai, de 72 anos, e tamb\u00e9m aposentado, &#8220;ficou desesperado sem saber o que fazer&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cSomos v\u00edtimas da intoler\u00e2ncia dessas pessoas ao longo de anos. N\u00f3s ouvimos passar um grupo dizendo &#8220;olha a macumbeira, olha as feiticeiras&#8221;, ou ent\u00e3o &#8220;n\u00e3o se aproxima porque s\u00e3o bruxas&#8221;. Quando pedia para parar, ouvia &#8220;por qu\u00ea, sua velha fedida&#8221;. J\u00e1 at\u00e9 colocaram pomba preta na laje dela. Levantou muro por causa disso\u201d, disse Eliane, que trabalha como vendedora.<\/p>\n<p>Ao procurarem a pol\u00edcia, um agente da 58\u00aa DP recomendou que Concei\u00e7\u00e3o recebesse atendimento m\u00e9dico antes de registrar ocorr\u00eancia. Enquanto elas foram ao Hospital da Posse, a agressora teria entrado na delegacia e, conforme relatou Eliane, disse que estava passando mal por causa da idosa, alegando ter sido agredida com uma tesoura. No entanto, n\u00e3o havia marcas em seu corpo.<\/p>\n<p>A rotina de Concei\u00e7\u00e3o inclui n\u00e3o apenas acordar \u00e0s 5h30, lavar a cal\u00e7ada e varrer, mas tamb\u00e9m abaixar a cabe\u00e7a perante os transeuntes que a xingam de &#8220;velha feiticeira, maluca e doida&#8221;, segundo Eliane, que enfatizou que o preconceito ficou ainda mais forte ap\u00f3s a chegada da agressora \u00e0 vizinhan\u00e7a. Mesmo ap\u00f3s a agress\u00e3o, chegou a ouvir moradores pr\u00f3ximos dizendo &#8220;Agora ela vai sossegar, j\u00e1 teve o que mereceu&#8221;, \u00e0s gargalhadas.<\/p>\n<p>\u201cEu quero que o advogado enquadre os fatos como eles realmente aconteceram. Eles (vizinhos) querem que a gente saia daqui de qualquer maneira. Tudo porque n\u00e3o compactuamos com as mesmas ideias que eles. Minha m\u00e3e \u00e9 uma pessoa guerreira, trabalhadora. Veio para o Rio com uma m\u00e3o na frente e outra atr\u00e1s. Nunca frequentou centro de candombl\u00e9 do Rio porque \u00e9 diferente do que ela ia no Nordeste. Mas isso n\u00e3o a impediu de fazer os cultuamentos dela. Por causa dos vasos de plantas e prote\u00e7\u00f5es, ningu\u00e9m acha que \u00e9 a casa de uma evang\u00e9lica\u201d, salientou Eliane.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia Religiosa (CCIR), repudiou a agress\u00e3o, por meio de um comunicado, em que afirmou esperar que esse epis\u00f3dio n\u00e3o caia em esquecimento. O Babalawo Ivanir dos Santos, interlocutor da CCIR, pretende agir e cobrar \u00e0 autoridades competentes a\u00e7\u00f5es concretas sobre o ocorrido.<\/p>\n<p>\u201cA Concei\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo auxiliada por um advogado que entrou em contato com ela hoje (neste domingo). Quando \u00e0s a\u00e7\u00f5es a serem feiras, primeiro, n\u00f3s estamos tentando um contato com o chefe de Pol\u00edcia Civil para a fam\u00edlia conversar com ele porque o delegado n\u00e3o aceitou enquadrar o caso como tentativa de homic\u00eddio por intoler\u00e2ncia religiosa. N\u00e3o pode ser uma coisa t\u00e3o simples (ficar registrado apenas como les\u00e3o corporal)\u201d, afirmou Ivanir.<\/p>\n<p>A pena prevista em lei nesse caso \u00e9 a mesma para crimes de les\u00e3o corporal e de ultraje devido \u00e0 cren\u00e7a religiosa \u2013 de tr\u00eas meses a um ano de deten\u00e7\u00e3o. No entanto, para os crimes relacionados \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa, a pena \u00e9 aumentada em um ter\u00e7o quando h\u00e1 emprego de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A Secretaria de Estado de Direitos Humanos e Pol\u00edticas para Mulheres e Idosos (SEDHMI) afirmou, por meio de nota, que prestar\u00e1 assist\u00eancia \u00e0 Concei\u00e7\u00e3o nesta segunda-feira, se colocando \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da v\u00edtima e de toda sua fam\u00edlia, oferecendo assist\u00eancia jur\u00eddica psicol\u00f3gica e social. O comunicado informou ainda que a pasta solicitar\u00e1 \u00e0 Pol\u00edcia Civil que o caso seja registrado como intoler\u00e2ncia religiosa e acompanhar\u00e1 de perto as investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Casos como esse s\u00e3o inadmiss\u00edveis em nosso estado. Esta senhora foi v\u00edtima, no m\u00ednimo, de dois crimes: intoler\u00e2ncia religiosa e agress\u00e3o contra idosos. O crescimento do n\u00famero de casos de intoler\u00e2ncia e o aumento da sua gravidade refor\u00e7am a urg\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o da Delegacia de Crimea Raciais e Delitos de Intoler\u00e2ncia (Decradi). Crimes como esse, que envolvem o preconceito n\u00e3o s\u00f3 religioso, mas tamb\u00e9m \u00e0 pessoa idosa, precisam ser combatidos. Pedimos para quem for v\u00edtima de qualquer agress\u00e3o motivada por intoler\u00e2ncia ou preconceito entre em contato com o nosso Disque Combate ao Preconceito&#8221;, frisou o secret\u00e1rio de Direitos Humanos \u00c1tila A. Nunes.<\/p>\n<p>Em junho de 2015, uma agress\u00e3o semelhante ocorreu contra Kailane, uma menina que, na \u00e9poca, tinha apenas 11 anos. A av\u00f3 dela K\u00e1thia Marinho, que \u00e9 m\u00e3e de santo, explicou que estavam vestidas de branco porque tinham acabado de sair do culto. Enquanto caminhavam com um grupo para casa, na Vila da Penha, dois homens come\u00e7aram a insult\u00e1-los. Um deles jogou uma pedra, que bateu num poste e depois atingiu a menina. Os agressores n\u00e3o tiveram medida de puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A candomblecista Maria da Concei\u00e7\u00e3o Cerqueira da Silva, de 65 anos, alegou ter sido agredida por uma vizinha devido \u00e0 intoler\u00e2ncia religiosa, em Nova Igua\u00e7u, mas o caso foi registrado apenas como les\u00e3o corporal na 58\u00aa DP (Posse). 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