{"id":6696,"date":"2015-07-15T21:04:37","date_gmt":"2015-07-16T00:04:37","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/?p=6696"},"modified":"2015-07-15T21:04:37","modified_gmt":"2015-07-16T00:04:37","slug":"pautas-ruins-reportagens-perversas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/pautas-ruins-reportagens-perversas\/","title":{"rendered":"Pautas ruins, reportagens perversas"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p>*Aurelice Aguiar<\/p>\n<p>A \u00e9tica jornal\u00edstica vai para a UTI toda vez que um esc\u00e2ndalo produzido em laborat\u00f3rio se torna uma not\u00edcia.<br \/>\nPara que um fato se torne not\u00edcia, ele precisa ser verdadeiro, concreto e que se sustente como algo de leg\u00edtimo interesse p\u00fablico. Uma pauta mal elaborada, munida com um verdadeiro \u201csaco de gatos\u201d, composto de fact\u00f3ides que n\u00e3o se interligam, vai gerar uma mat\u00e9ria igualmente mal elaborada, vazia e que s\u00f3 revela interesses que n\u00e3o est\u00e3o dentro da \u00e9tica do jornalismo. O avan\u00e7o do fluxo de informa\u00e7\u00f5es no cotidiano est\u00e1 tornando parte da imprensa pregui\u00e7osa e \u201cachista\u201d, contentando-se com uma informa\u00e7\u00e3o de baixa qualidade para construir reportagens perversas.<br \/>\nDe carona na ind\u00fastria do esc\u00e2ndalo, que vende not\u00edcia e alavanca audi\u00eancia, o mau jornalismo sapateia sobre a crise institucional e econ\u00f4mica, a viol\u00eancia urbana e outras trag\u00e9dias cotidianas, extraindo para si a parte que lhe cabe do suco de bobagens que, sem o menor acanhamento, chama de jornalismo e estampa nos notici\u00e1rios, como se fosse de interesse p\u00fablico, como se ali existisse algo al\u00e9m de produtos de fofocas maliciosas e detalhes abjetos que n\u00e3o traduzem a realidade dos fatos.<br \/>\nO mau jornalismo se constr\u00f3i no decorrer do dia, quando a emp\u00e1fia e a vaidade n\u00e3o permitem ao jornalista admitir que aquela ideia original de uma pauta bomb\u00e1stica n\u00e3o vai vingar, pois ali n\u00e3o tem not\u00edcia e o fato n\u00e3o se sustenta. Mas ele vai adiante e segue inconsequentemente, tentando enriquecer o seu texto e for\u00e7ar a situa\u00e7\u00e3o, para levar ao p\u00fablico a sua teoria da conspira\u00e7\u00e3o. L\u00e1 pelo final da tarde, a press\u00e3o das reda\u00e7\u00f5es aumenta. Com o deadline apertado, ele j\u00e1 deixou para tr\u00e1s qualquer possibilidade de abortar a tola id\u00e9ia de denegrir quem quer que seja para concluir o seu trabalho, que a essa altura, nem mesmo o pr\u00f3prio acredita mais. Mas n\u00e3o h\u00e1 tempo de recuar.<br \/>\nNo dia seguinte, uma reportagem grande, com fotos, notas de assessoria, fatos isolados costurados sem habilidade, argumentos deficit\u00e1rios, parecem um bal\u00e3o de g\u00e1s, que se avoluma, mas cujo conte\u00fado se esvai pelo ar. O mau jornalismo s\u00f3 consegue percorrer o caminho do mal. Porque, na sua precariedade moral e intelectual, junta trapos para tapar um buraco no seu notici\u00e1rio?\u2014?que ele mesmo abriu?\u2014?mas \u00e9 incapaz de estremecer a sua pseudo-superioridade, para evitar os estragos do dia seguinte. Na falta de substantivos, que dariam a verdadeira \u201csubst\u00e2ncia\u201d \u00e0 sua hist\u00f3ria, ele deixa escapar adjetivos, arrisca dedu\u00e7\u00f5es e manda a \u00e9tica jornal\u00edstica para a UTI, sem sequer enxergar os estragos do seu bombardeio silencioso, deixando gente inocente ferida e vidas viradas de pernas para o ar.<br \/>\nPara relembrar aos que j\u00e1 esqueceram, vale a releitura do juramento do jornalista: Juro exercer a fun\u00e7\u00e3o de jornalista assumindo o compromisso com a verdade e a informa\u00e7\u00e3o. Atuarei dentro dos princ\u00edpios universais de justi\u00e7a e democracia, garantindo principalmente o direito do cidad\u00e3o \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. Buscarei o aprimoramento das rela\u00e7\u00f5es humanas e sociais, atrav\u00e9s da cr\u00edtica e an\u00e1lise da sociedade, visando um futuro mais digno e mais justo para todos os cidad\u00e3os brasileiros.<\/p>\n<p>*Aurelice Aguiar \u00e9 jornalista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>*Aurelice Aguiar A \u00e9tica jornal\u00edstica vai para a UTI toda vez que um esc\u00e2ndalo produzido em laborat\u00f3rio se torna uma not\u00edcia. Para que um fato se torne not\u00edcia, ele precisa ser verdadeiro, concreto e que se sustente como algo de leg\u00edtimo interesse p\u00fablico. 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