{"id":86231,"date":"2018-08-02T21:03:57","date_gmt":"2018-08-03T00:03:57","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/?p=86231"},"modified":"2018-08-02T21:03:57","modified_gmt":"2018-08-03T00:03:57","slug":"facebook-algoritimos-imperfeitos-expoem-geracao-que-acredita-ter-a-tecnologia-na-palma-da-mao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalhoje.inf.br\/wp\/facebook-algoritimos-imperfeitos-expoem-geracao-que-acredita-ter-a-tecnologia-na-palma-da-mao\/","title":{"rendered":"Facebook: Algor\u00edtimos imperfeitos exp\u00f5em gera\u00e7\u00e3o que acredita ter a tecnologia na palma da m\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p>* Roosevelt Colini<\/p>\n<p>Geralmente tudo que \u00e9 feito sem considera\u00e7\u00f5es morais, movido pelo embalo do momento ou pela gan\u00e2ncia descontrolada, cedo ou tarde transborda em lamban\u00e7a e puni\u00e7\u00e3o. Queremos acreditar nisso. Muitas vezes, acontece. Mas s\u00f3 acontece em democracias.<br \/>\nO Facebook acabou de perder bilh\u00f5es de d\u00f3lares em valor de mercado. Decerto isso n\u00e3o \u00e9 o fim da rede social. Ela n\u00e3o vai acabar. Nem deve. Pode acontecer que perca espa\u00e7o para outras redes, mas estas chegaram para ficar. A li\u00e7\u00e3o \u00e9 que ningu\u00e9m pode ser t\u00e3o autossuficiente a ponto de agir como se fosse superior a todas as inst\u00e2ncias da sociedade.<br \/>\n\u00c9 muita grana, poder e fama concentrados nas m\u00e3os de poucos. Isso faz parte do jogo, tudo bem. Mas a psique desses poucos \u00e9 t\u00e3o problem\u00e1tica como a minha ou a sua. Mas no caso deles, essa aura de deuses faz com que se julgassem, no m\u00ednimo, como super-homens.<br \/>\nO caldo entornou no momento em que ficou claro demais que a utilidade se transformou em pervers\u00e3o. Ent\u00e3o, esses jovens vieram a p\u00fablico e se revelaram perplexos, f\u00fateis e tolos. Perceberam que habilidade n\u00e3o \u00e9 conhecimento e que a inova\u00e7\u00e3o n\u00e3o garante a \u00e9tica. Foi muita areia para seus caminh\u00f5es.<br \/>\nAt\u00e9 que aconteceu essa rebordosa, eles diziam que tudo ia bem e que seus algoritmos eram: perfeitos. Essa perfei\u00e7\u00e3o, essa aposta em intelig\u00eancia artificial, me fez refletir sobre a dist\u00e2ncia entre duas gera\u00e7\u00f5es: essa da\u00ed, autoengendrada, a galerinha do vale do Sil\u00edcio e outra, que se formou profundamente contaminada pelas transforma\u00e7\u00f5es sociais e culturais ocorridas depois da Segunda Guerra. O resumo \u00e9 o seguinte:<br \/>\nUns acham que sabem o que dizem, outros dizem o que sabem.<br \/>\nTalvez eles nem percebam que seus projetos se tornaram totalizantes e totalit\u00e1rios. Felizmente tem gente que pensa diferente. N\u00e3o precisamos recorrer a fil\u00f3sofos (e h\u00e1 excelentes pensadores se debru\u00e7ando sobre esse tema). Acho mais interessante selecionar um filme popular, cujo diretor sabe muito bem o que diz: Alien Covenant, de Ridley Scott.<br \/>\nN\u00e3o s\u00e3o apenas gera\u00e7\u00f5es que se contrap\u00f5em \u2013 o que \u00e9 natural \u2013, mas tamb\u00e9m perspectivas de vida. Escolho esse tipo de filme porque provavelmente a galerinha do Sil\u00edcio assistiu. H\u00e1 controv\u00e9rsias se a sequ\u00eancia fez justi\u00e7a ao cl\u00e1ssico original Alien \u2013 O Oitavo Passageiro. Contudo, para esse debate que proponho, o diretor criou algo sensacional. Mesmo sendo um filme de a\u00e7\u00e3o, sujeito \u00e0s f\u00f3rmulas desse tipo de obra, o diretor deixou seu recado.<br \/>\nEle disse o que pensava no di\u00e1logo de quatro minutos do pr\u00f3logo do filme. A cena \u00e9 brilhante.<br \/>\nAlgu\u00e9m que produz uma cena como essa, leu muito na vida. Conhece muito. \u00c9 um maestro que, mesmo dirigindo um filme de a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixou de semear belezas monumentais. \u00c9 preciso colher.<br \/>\nA cena pode parecer banal: o dono de uma empresa cria um rob\u00f4, r\u00e9plica perfeita de um humano. O rob\u00f4 se levanta, observa ao redor e troca os primeiros di\u00e1logos de sua exist\u00eancia. O homem que o criou diz: filho. O rob\u00f4 o chama de pai.<br \/>\nPois bem: \u00e9 hora de arrega\u00e7ar as mangas. Nesses minutos sublimes, Ridley Scott evoca os mais profundos conflitos da alma humana, revisita a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, realiza uma das mais cobi\u00e7adas pretens\u00f5es do homem \u2013 tornar-se Deus \u2013, e revela a d\u00favida mais ancestral, e talvez mais irrespond\u00edvel que j\u00e1 ousamos fazer.<br \/>\nFa\u00e7a-se a luz. A sala do pai \u00e9 toda branca: teto, parede, piso. O rob\u00f4 nasce (David \u2013 Michael Fassbender). Seus olhos captam os objetos que est\u00e3o decorando a sala. O criador (Weyland \u2013 Guy Pearce) pergunta ao filho o que este est\u00e1 vendo. Logo em seguida, anuncia que \u00e9 seu pai.<br \/>\nO rob\u00f4 enumera aquilo que v\u00ea. Ele apenas cita o nome das obras e seus autores, nada mais. Por\u00e9m, aquilo que vai retratando enquanto d\u00e1 os primeiros passos no mundo representa uma jornada imemorial do humano: a mitologia (o rob\u00f4 toca Wagner ao piano), o nascimento da cristandade (quadro da natividade), o velho testamento (David), o renascimento dando voz aos mitos cl\u00e1ssicos de cria\u00e7\u00e3o, e o p\u00f3s-moderno (cadeira Carlo Bugatti).<br \/>\nLevanta-te, diz o pai, que percebe que sua cria\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeita. A primeira pergunta \u00e9 muito mais do que parece: resulta em uma reviravolta avassaladora.<br \/>\n&#8220;Perfeito.&#8221;, comenta o pai ao ver o filho dar os primeiros passos.<br \/>\n&#8220;Eu sou?&#8221; \u00e9 a primeira pergunta que faz aquele que acaba de nascer.<br \/>\n&#8220;Perfeito?&#8221;, retruca o pai com outra pergunta, ingenuamente acreditando que o filho se surpreendeu com a perfei\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Seu filho?&#8221;, devolve David, provocando a primeira decep\u00e7\u00e3o do pai. O filho sabe que \u00e9 perfeito; em pouco tempo saber\u00e1 tamb\u00e9m que \u00e9 superior ao pai. A pergunta, na verdade sua \u00fanica d\u00favida, ser\u00e1 sobre a ontologia daquele que o criou. Mas essa ficar\u00e1 sem resposta. Nada mais h\u00e1 para perguntar: a partir da\u00ed David far\u00e1 considera\u00e7\u00f5es e afirma\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO pai permite que o filho escolha seu pr\u00f3prio nome. N\u00e3o h\u00e1 transmiss\u00e3o nem legado. O rob\u00f4 se aproxima da escultura perfeita e se batiza: David.<br \/>\nPerfei\u00e7\u00e3o: realiza-se o sonho dos deuses, assim como o de Michelangelo na \u00faltima cinzelada sobre o m\u00e1rmore.<br \/>\nPor\u00e9m, a ilus\u00e3o da perfei\u00e7\u00e3o tem sido o mais tr\u00e1gico engano dos deuses e dos homens&#8230; Assista.<br \/>\nFinalmente, pai e filho conversam. O filho demole as aspira\u00e7\u00f5es do pai e o confronta com a dor da condi\u00e7\u00e3o humana. O parric\u00eddio \u00e9 instant\u00e2neo. A perplexidade do pai surge com sutileza no olhar mal dissimulado de Weyland. O conflito humano, as trag\u00e9dias, reis destronados, complexos, os dramas de uma vida, enfim, s\u00e3o condensados em poucas palavras.<br \/>\nAcuado e ciente de sua finitude e pequenez, o criador usa seu \u00faltimo recurso: o poder paterno.<br \/>\n&#8220;Sirva-me ch\u00e1, David.&#8221;<br \/>\nAgora \u00e9 David quem lan\u00e7a um olhar sutil. Ele acaba de entender que \u00e9 superior ao pai. O filho obedecer\u00e1. Para ele, por\u00e9m, o pai nada mais representa: \u00e9 in\u00fatil, impotente e indigno diante do filho. Rei morto, rei posto.<br \/>\n&#8220;Sirva-me o ch\u00e1!&#8221;, quase grita Wayland enquanto mira com rancor o rosto do filho perfeito.<br \/>\nL\u00e1 fora, atrav\u00e9s da janela que ocupa toda a parede, revela-se o cen\u00e1rio deslumbrante de um lago cercado por montanhas nevadas. Se a paisagem \u00e9 real ou uma proje\u00e7\u00e3o em tela plana, n\u00e3o importa: a natureza e a cultura est\u00e3o irremediavelmente separadas.<br \/>\nEm nossa longa jornada diante da natureza in\u00f3spita, criamos o milagre da linguagem e da cultura. Queremos a perfei\u00e7\u00e3o, por\u00e9m a linguagem \u00e9 caracterizada pelo erro, engano, imagina\u00e7\u00e3o e mentira. A ambiguidade humana \u00e9 nosso destino inelut\u00e1vel, consequ\u00eancia do bom e do mal que realizamos em nossa recente jornada apartada da natureza.<br \/>\nAdiante no filme, o diretor completa seu ponto de vista, quando David confronta-se com o erro. \u00c9 uma pequena dica que Ridley Scott nos d\u00e1 sobre o di\u00e1logo inicial e prova que a cena possui a profundidade que estou defendendo.<br \/>\nSe um dia seremos deuses e criaremos um ser consciente, nem mesmo os c\u00e9us podem antecipar a resposta.<br \/>\nMas hoje, \u00e9 presun\u00e7\u00e3o infantil achar que estamos perto disso. As m\u00e1quinas s\u00e3o eficientes e infinitamente mais r\u00e1pidas do que n\u00f3s, por\u00e9m s\u00e3o escravas da sintaxe humana. Tudo o que fazem \u00e9 cumprir algoritmos, que foram desenvolvidos com a retaguarda da consci\u00eancia de seus criadores.<br \/>\nAs m\u00e1quinas n\u00e3o pensam porque n\u00e3o erram. Quando falham, suas falhas refletem falhas humanas. Nada al\u00e9m de equ\u00edvocos, assim como aqueles jovens magos, que talvez nem desconfiem que procuram desenvolver um mundo totalizante e totalit\u00e1rio.<br \/>\nEsses jovens est\u00e3o t\u00e3o sujeitos aos erros como n\u00f3s, por\u00e9m t\u00e3o poderosos como nenhum de n\u00f3s. O problema \u00e9 que nossa for\u00e7a est\u00e1 na escolha e no debate, mas abrimos m\u00e3o desse poder. Deixamos de refletir; \u00e0s vezes, sobre um filme; \u00e0s vezes, sobre a vida; \u00e0s vezes, sobre a manipula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor\u00e9m, nada ser\u00e1 melhorado sem a intermedia\u00e7\u00e3o do debate e reflex\u00e3o. Nada ser\u00e1 conhecido sem a hist\u00f3ria, a filosofia, o cinema, a literatura. Isso n\u00e3o quer dizer que somente doutores e especialistas nesses conhecimentos tenham acesso ao conhecimento. Pelo contr\u00e1rio, esse conte\u00fado est\u00e1 no ensino fundamental e no secund\u00e1rio. Est\u00e1 nos livros e em uma educa\u00e7\u00e3o comprometida.<br \/>\nUm filme de um diretor comercial est\u00e1 a\u00ed para provar o que digo.<br \/>\nInfelizmente, esse conte\u00fado n\u00e3o est\u00e1 na realidade educacional brasileira. Falta-nos uma coisa fundamental: leituras. Para que possamos compreender que a riqueza n\u00e3o est\u00e1 no homog\u00eaneo, mas na diferen\u00e7a e na muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>*Roosevelt Colini \u00e9 escritor. Website: http:\/\/www.rcolini.com.br.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>* Roosevelt Colini Geralmente tudo que \u00e9 feito sem considera\u00e7\u00f5es morais, movido pelo embalo do momento ou pela gan\u00e2ncia descontrolada, cedo ou tarde transborda em lamban\u00e7a e puni\u00e7\u00e3o. Queremos acreditar nisso. Muitas vezes, acontece. Mas s\u00f3 acontece em democracias. O Facebook acabou de perder bilh\u00f5es de d\u00f3lares em valor de mercado. 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