A cor da suspeita tem nome

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*João Santana

No Brasil, parado é poste. Correndo é bandido. E, se for negro, não há sequer o direito à dúvida.

Mesmo que seja médica – Como foi com Andrea Marins Silva – Rio de Janeiro.

A polícia não perguntou. Não investigou. Matou.

Não importa a fé — evangélico, de terreiro, católico. Não importa a profissão — pedreiro, sorveteiro, entregador. Há uma linha invisível que define quem pode viver e quem pode morrer. E essa linha tem cor.

Ser negro, neste país, ainda é carregar nas costas a presunção de culpa.

A morte da Dra. Andrea Marins Silva não é um “caso isolado”. É símbolo. É denúncia. É a prova de que, para o racismo estrutural, diploma não protege, profissão não blinda, humanidade não basta.

Há uma contradição gritante que o Brasil insiste em esconder: o mesmo país que mata o negro depende dele todos os dias. Está no hospital, na escola, na obra, no transporte, na universidade. Está na base que sustenta o país — e, cada vez mais, também nos espaços de excelência que tentaram, por séculos, negar.

Negros e negras estão, sim, nas faculdades. Estão se formando médicos, advogados, juízes, pesquisadores. Estão rompendo o cerco histórico da exclusão. Mas, para o olhar armado do preconceito, isso ainda não é suficiente.

Porque o racismo não reconhece diploma.

Quando uma viatura chega a um pronto-socorro, muitas vezes são mãos negras que ajudam a salvar vidas. Mas, fora daquele ambiente, essas mesmas mãos seguem sendo tratadas como ameaça.

E quando o Estado mata, o que deveria haver é rigor, responsabilização e justiça.

Mas a justiça, no Brasil, também tem cor, classe e endereço.

Casos envolvendo vítimas negras raramente recebem o mesmo peso, a mesma urgência, a mesma comoção. E quando recebem, ainda assim enfrentam uma estrutura que naturaliza a violência.

Por isso, não basta investigar. Não basta punir.

É preciso reconhecer: quando o Estado tira a vida de uma mulher negra, médica, cidadã, não é apenas um erro.

É a continuidade de um sistema.

E isso deveria, sim, ser tratado como agravante.

Porque não se trata de exceção.                                       

É regra.     

* João Santana Barboza Jr é jornalista e da Executiva Nacional                                                                              comunicacao@afrobrasilidade.ong.br

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