Metade das famílias atendidas pelo Cultura na Faixa em Caxias é monoparental

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Levantamento com 294 participantes mostra diferentes configurações familiares em Duque de Caxias e Nova Iguaçu e aponta concentração de baixa renda entre as famílias pesquisadas – Uma mãe que trabalha, cuida dos filhos e administra sozinha a rotina da casa. Irmãos que dividem o mesmo endereço e compartilham os cuidados com as crianças. Avós que assumem a criação dos netos. Casas onde convivem três ou até quatro gerações. As diferentes formas de organização familiar encontradas em dois territórios da Baixada Fluminense são o ponto de partida de uma pesquisa realizada com participantes do Projeto Cultura na Faixa.

O levantamento analisou informações das fichas de inscrição de 294 participantes, sendo 187 do Núcleo Geneciano, em Nova Iguaçu, e 107 do Ana Clara, em Duque de Caxias. Os dados mostram diferenças entre os dois territórios, mas também uma característica em comum: a presença de famílias vivendo com renda de até dois salários mínimos.

O dado que chama atenção está no Ana Clara. Entre as 107 famílias analisadas, 54, ou 50,5%, apresentam configuração monoparental. Foram identificadas 49 mães que moram sozinhas com um ou mais filhos, dois pais solo e três casos em que a avó cria o neto sozinha. Considerando especificamente as mães solo, elas representam pelo menos 45,8% das famílias pesquisadas nesse núcleo.

A renda ajuda a dimensionar as condições em que parte dessas mulheres exerce o cuidado. Das 49 mães solo identificadas em Ana Clara, 14 vivem com renda familiar de até meio salário mínimo e 23, com renda acima de meio e até um salário mínimo. Outras oito declararam renda entre um e dois salários mínimos. Entre as mulheres que vivem sozinhas com os filhos, 38 têm registro de recebimento do Bolsa Família.

O estudo chama atenção para uma distinção importante: a monoparentalidade não significa, por si só, vulnerabilidade. O que pode ampliar a exposição dessas famílias à insegurança econômica são as condições sociais associadas à renda, ao trabalho, ao gênero, à raça e ao acesso a políticas e redes de proteção.

No Geneciano, a família se amplia

A cerca de 20 quilômetros dali, no Geneciano, Nova Iguaçu, a pesquisa encontrou outra dinâmica. Entre os 187 participantes analisados, 21,3% pertencem a famílias monoparentais, enquanto 33,7% vivem em famílias compostas por pai ou padrasto, mãe e filhos. Outros 45% estão inseridos em estruturas familiares plurais, com características de família extensa e da chamada “geração sanduíche”.

São residências onde avós, tios, irmãos, sobrinhos, pais e filhos podem compartilhar não apenas o endereço, mas responsabilidades de cuidado. O levantamento identificou, por exemplo, irmãos e irmãs que vivem na mesma casa e criam seus filhos juntos, além de crianças e jovens que vivem com avós ou tios em vez dos pais biológicos.

Entre as famílias monoparentais de Geneciano, foram identificadas 33 mães solo, dois pais solo e cinco crianças que vivem somente com a avó. A pesquisa também encontrou sete casos de mulheres que vivem simultaneamente com idosos e crianças – filhos ou sobrinhos -, situação associada ao conceito de “geração sanduíche”.

A renda volta a aparecer como elemento comum. Em Geneciano, 96,2% das famílias pesquisadas recebem até dois salários mínimos e 53% estão inscritas no Bolsa Família. A faixa mais frequente é superior a meio e até um salário mínimo, informada por 73 das 187 famílias. Outras 32 declararam renda de até meio salário mínimo e 60, entre um e dois salários.

Quando a rede de apoio começa dentro de casa

As diferenças entre os territórios ajudam a mostrar que falar de família nas periferias exige olhar para arranjos que vão além do modelo formado por pai, mãe e filhos. Enquanto Ana Clara apresenta maior presença de famílias monoparentais femininas, Geneciano registra maior participação de famílias extensas, nas quais parentes compartilham moradia e cuidados.

Essas redes ganham importância quando a renda é limitada. Segundo a análise, familiares, vizinhos, amigos, organizações comunitárias e serviços públicos podem participar da estrutura cotidiana de apoio, seja no cuidado das crianças, na alimentação, na moradia ou no acesso a direitos. CRAS, escolas, unidades de saúde e programas de transferência de renda aparecem nesse contexto como parte da rede formal de proteção social.

Conhecer essas configurações também permite que projetos sociais compreendam quem está do outro lado de suas atividades. Uma criança ou adolescente que chega a uma oficina traz consigo uma realidade familiar que pode envolver uma mãe responsável sozinha pelo sustento da casa, uma avó responsável pela criação ou uma rede formada por diferentes gerações dividindo o mesmo espaço.

É nesse território que atua o Cultura na Faixa, projeto da ONG Se Essa Rua Fosse Minha (SER), realizado por meio de convênio com a Transpetro. Ao mapear o perfil das famílias atendidas, o levantamento contribui para compreender as condições sociais que atravessam a vida dos participantes e a importância da articulação entre projetos sociais, famílias, comunidade e serviços públicos.

A pesquisa foi elaborada pela Assessoria de Pesquisa Social do projeto, a partir das informações fornecidas pelos próprios participantes ou por seus responsáveis nas fichas de inscrição, quando menores de idade. O levantamento considera os familiares residentes na mesma casa e suas relações de parentesco e reúne dados dos participantes inscritos até maio de 2026.

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