Mãe de Vanessa volta à casa onde a filha foi assassinada

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Dez metros quadrados: sala, cozinha e quarto, divididos por cinco pessoas. Ao lado da porta de entrada, a mochila rosa de princesa ainda estava lá, lembrando que Vanessa morou naquela casa a vida toda. Na última terça-feira, a menina, de 10 anos, chegou da escola, deixou a bolsa ali e se virou para colocar os chinelos e sair. Na soleira, um tiro de fuzil acertou sua testa. Ontem, Adriana Maria dos Santos, de 29 anos, voltou, pela primeira vez após a morte da filha, ao imóvel, na Rua Maranhão, na Boca do Mato, Complexo do Lins. E decidiu que é impossível continuar vivendo naquele lugar.

“Moro aqui há 16 anos. Criei meus filhos aqui, mas não dá para ficar. A Vanessa nasceu e cresceu aqui. Mas estou com medo. Estava sepultando a minha filha e, quando voltei, os policiais estavam aqui. O que queriam? Estou assustada. Quero sair daqui o mais rápido possível”, disse Adriana, com seus pertences já numa bolsa.

À noite, ela, seu atual marido e os outros dois filhos deixaram o local rumo à casa de parentes. Bonecas, roupas e outros objetos, como as provas de Matemática e de Língua Portuguesa de Vanessa, ficaram na casa.

Seis marcas de tiros na parede da sala fazem Adriana imaginar a cena que não presenciou. A faxineira estava trabalhando no momento em que pelo menos quatro policiais da UPP Camarista-Méier estiveram no local e, segundo a versão apresentada por eles à Corregedoria da PM, trocaram tiros com um bandido que se escondia dentro do imóvel. O subcomandante da UPP foi baleado no ombro.

Para a única moradora da favela que foi testemunha do crime, o tiro de um dos policiais acertou a menina. A mulher, que terá o nome preservado, é parente de Vanessa. Horas após o assassinato, ela prestou depoimento na Divisão de Homicídios (DH), que investiga o caso.

“Ela estava na porta. E eu a uns dois metros de distância dela. Um dos policiais disse que ia entrar na casa. Não pediu permissão, simplesmente entrou. Outros três ficaram do lado de fora. Nesse momento, não tinha tiroteio. Eles não tiraram a menina dali, não pediram para ela sair. De repente, ouvi tiros de dentro da casa e pulei para me proteger. Quando me virei, a Vanessa já estava morta”, explicou a testemunha, pisando na marca de sangue ressecado que ficou em frente à casa.

No enterro de Vanessa, o pai, Leandro Monteiro de Matos, de 39 anos — que se separou de Adriana e se mudou do Complexo do Lins — lamentava não ter vivido mais ao lado da filha.

“Não tive tempo nem de saber quais eram os sonhos dela”, desabafou o pedreiro.

A mãe da menina não saiu do lado do caixão branco durante o cortejo. Acompanharam o velório e o enterro moradores da favela, parentes e colegas de escola de Vanessa. Nenhuma autoridade compareceu ao sepultamento.

 

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