
Ao contrário do que foi anunciado pela Secretaria de Segurança, as UPPs não têm 3 mil homens em funções burocráticas aptos a reforçar o patrulhamento nas ruas imediatamente. Deste total, 1,6 mil policiais não podem sair dos quarteis. São agentes licenciados por diversos motivos: tratamentos psicológico e médico; lesões físicas ou fora de serviço por determinação judicial. O Estado Maior da PM ainda não sabe como vai lançar mão do efetivo prometido pela secretaria.
Segundo o estudo da PM encomendado pela Secretaria de Segurança para avaliar as UPPs, somente 900 agentes de unidades pacificadoras estão prontos para ir às ruas imediatamente: eles ocupam funções administrativas na Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) e em cada uma das 38 unidades. Outros 500 estão de férias, folgas ou receberam gratificações.
De acordo com o anúncio da secretaria, 1.100 PMs lotados nas UPPs passariam a patrulhar a cidade do Rio. Outros 900 iriam para a Baixada Fluminense e 550 para Niterói e São Gonçalo.
Ao final de três meses de pesquisas, uma comissão de oficiais do Estado Maior e da CPP apresentou ao comando da PM e à Secretaria de Segurança um relatório que sugeria a extinção de 12 UPPs. De acordo com o documento, somente as sete unidades da Grande Tijuca e seis da Zona Sul teriam o efetivo mantido. Também estava previsto o reforço do efetivo das oito UPPs dos complexos do Alemão e da Penha e das unidades de Manguinhos, Jacarezinho, Arará/Mandela e Providência, consideradas estratégicas (Veja a lista no quadro abaixo).
O estudo da PM não previa a criação do Batalhão de Polícia Pacificadora para as áreas da Penha e do Alemão. A medida proposta pelos oficiais que fizeram o estudo era a criação de duas unidades: uma para cada complexo de favelas. O contingente que reforçaria essas UPPs sairia de 12 unidades que seriam extintas e transformadas em Companhias Destacadas, como a Rocinha e a Cidade de Deus. A situação nessas comunidades é considerada crítica pelos ataques às bases, a policiais e porque, segundo o estudo, são as menos aceitas pelos moradores das favelas. De posse do diagnóstico, o comandante da PM, coronel Wolney Dias, e o secretário estadual de Segurança Pública, Roberto Sá, não aceitaram implementar um recuo no projeto e mantiveram todas as UPPs.
O anúncio do deslocamento dos PMs de UPPs para o asfalto tem por trás uma briga política na caserna. Coronéis e tenentes-coronéis reclamavam que, enquanto as unidades, comandadas por majores e capitães, tinham efetivo sobrando, batalhões sofriam com baixo efetivo.
Nessa queda de braço, prevaleceu o argumento de que era preciso responder à escalada da criminalidade: 86,5% da letalidade violenta se concentra na capital, Baixada, Niterói, São Gonçalo e Itaboraí. O problema passou a ser onde conseguir efetivo. A solução foi buscar PMs das UPPs. Contudo, parte desse efetivo cedido é formada pelos chamados policiais aptos B e C. Segundo fontes da polícia, são homens com restrições médicas que os incapacitariam para o patrulhamento. Nessa classificação, estariam ainda soldados baleados em confrontos.
Ex-secretário nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho diz que é uma falha grave o estado informar que vai reforçar o patrulhamento das ruas com 3 mil PMs que atualmente fazem serviço administrativo nas UPPs — o número real, no entanto, é de apenas 900. Para ele, que há mais de 20 anos presta consultoria na área de segurança, o ideal seria a PM concentrar esforços em áreas prioritárias, em vez de pulverizar o efetivo em diversos batalhões. Abaixo, algumas questões respondidas por José Vicente Filho:
A PM não deveria saber que parte do efetivo está de férias ou de licença, por exemplo?
O problema da polícia ou de qualquer organização em momentos de crise é querer dar uma informação que não é real. A polícia já está mal falada, malvista. É uma falha grave. Não pode dar uma informação com pressa, mas com precisão.
A PM deveria concentrar em áreas mais críticas. Se dispersar esses 900 policiais, não terá efeito prático no patrulhamento.
Atualmente, no máximo, 30% do Rio têm problemas muito graves. Nas demais áreas dá para controlar com o efetivo atual.
Que medida pode ser adotada para aumentar o efetivo nas ruas?
O estado poderia abrir concurso para contratar 1.500 profissionais apenas para serviço administrativo.
















