*Zé Roberto Padilha

Mesmo sendo tricolor, tenho muito orgulho de ter jogado no Flamengo. Quando então, três dos meus quatro filhos cresceram e se juntaram a nação, passei a torcer no Fla-Flu pelo empate. Que prazer poderia ter um pai diante da tristeza dos filhos estampada quando Renato Chaves marcou 3×1? Após meus primeiro cinco livros terem capas tricolores, resolvi posar na capa do ultimo, “Memórias de um ponta à esquerda”, com a camisa 11 do Flamengo. E através do Junior, com quem joguei, fui à Gávea solicitar um espaço para lançar o livro em meio a programação festiva do seu aniversário, que será realizada no próximo dia 15 de Novembro.
Tudo acertado tratei de convidar os amigos e até um ônibus nos foi cedido para levar junto comigo a embaixada do Flamengo de Três Rios. Ontem, fui conferir a programação oficial de aniversário. E o lançamento do nosso livro não estava nela incluída. Passei um Zap à noite para o Júnior e, hoje pela manhã, recebi a resposta: segundo Diniz, vice-presidente do patrimônio histórico, nosso livro foi vetado na festa por trazer, na contra capa, uma foto com a camisa do Fluminense. Parece tema da redação do Enem sobre Direitos Humanos: foi negado um espaço, pequeno que fosse, em meio a um dia todo de jogos festivos, pagodes, churrascos, fogos de artifício por causa de uma foto na contra capa usando uma camisa tricolor. Fiquei a imaginar a importância dos 120 anos do Flamengo se não houvesse o Fla-Flu, a cereja do bolo. E ainda dizem pregar a paz nos estádios entre as torcidas.
Roberto Diniz certamente nunca disputou um Fla-Flu. Muito menos o do troca-troca. Nem imagina o que se passou comigo no primeiro que disputei com a camisa “adversária”. Nossa concentração era em São Conrado e para chegar ao Maracanã precisávamos passar pelo Túnel Dois Irmãos. E antes dele havia a Rocinha. E de minha poltrona, e dos meus anseios, de um enorme desafio profissional em meio a uma paixão amadora, vi centenas de bandeiras daquela comunidade esquecida descendo ladeiras em busca de um resultado que lhes desse consolo na vida. Uma vitória que lhes devolvesse a dignidade, efêmera que fosse.
A ficha não caiu naquele domingo. Desabou dentro de mim. E lutei por eles como jamais havia lutado em um Fla-Flu. O Jornal dos Sports nos deu nota 9,5, menor apenas que a do Zico, de tanto que joguei contra nossa contra capa. O vice- presidente e quem mais carimbou o nosso veto às festividades, continua a enxergar o futebol profissional com a paixão amadora debaixo do braço. Se não fosse assim, manteriam o Zé Ricardo até o fim. E por nunca ter dado um peteleco na bola, ao impedir nosso acesso à festa acharam ter acertado na canela da gente. Na verdade, atingiram mesmo foram os sentimentos e as lembranças de quem teve a honra de vestir seu manto sagrado.
>> Na foto, da esquerda para a direita, em pé: Félix, Toninho Baiano, Edinho, Silveira, Zé Mário e Marco Antonio. Agachados: Gil, Kleber, Manfrini, Rivellino e Zé Roberto.
*Zé Roberto Padilha foi ponta-esquerda do Fluminense, na famosa Máquina Tricolor, e do Flamengo.
















