A feira das pesquisas eleitorais

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*Jorge Gama

A feira é um modelo de comércio eventual em que a população busca a oportunidade de comprar um bom produto por um preço ainda melhor. O feirante expõe sua mercadoria da melhor forma possível para despertar o interesse do consumidor. A diferença entre vendedor e comprador é importante para compreender os objetivos de cada um. O vendedor experiente conhece as necessidades e preferências de seu público.

Estamos no final do segundo turno das eleições presidenciais no Brasil. Seria mais uma disputa administrativa se não estivéssemos diante de uma escolha ideológica.

De um lado, uma esquerda fragmentada, defensora de teses identitárias, de um ambientalismo radical e de uma concepção de direitos humanos frequentemente criticada por sua tolerância com a criminalidade, reunida em torno da liderança pessoal de Lula e da estrutura partidária do PT. Do outro, uma direita conservadora, que defende a família, a Pátria e valores religiosos, invoca a liberdade e, com Jair Bolsonaro transferindo ao filho Flávio a tarefa de representar seu campo político, busca consolidar sua liderança.

Os resultados do primeiro turno indicam um desejo de mudança. A esquerda enfrenta sinais de cansaço de uma parcela da população diante das agendas populistas, dos gastos públicos elevados e das crises institucionais, nas quais os Poderes da República se confrontam além do que seria razoável. As redes sociais ampliam a circulação diária de informações e ajudam a tornar esse descontentamento mais visível.

A direita conservadora, embora ainda sem apresentar projetos consistentes e reformas estruturantes, limita-se, em boa medida, a propostas emergenciais e grandes manifestações de oposição ao governo. Ainda assim, mantém vantagem nas pesquisas, segundo o cenário aqui observado.

É, porém, na disputa entre os antigos e os novos institutos de pesquisa que identifico outro aspecto dessa feira: a busca por recuperar a credibilidade sem desagradar aos seus maiores compradores, entre os quais se encontram os agentes políticos interessados nos resultados.

A disputa pela preferência do consumidor não pode comprometer a credibilidade de quem vende. Quando os levantamentos quantitativos não confirmam as expectativas, cresce o espaço para interpretações subjetivas das pesquisas qualitativas, cuja seleção de participantes e apresentação dos resultados podem influenciar a percepção pública da disputa.

Chegamos, assim, ao final da feira. O vendedor procura enfeitar o produto e colocá-lo em posição de destaque para atrair o comprador, sem perceber que, em muitos casos, o consumidor já escolheu sua mercadoria, guarda-a na bolsa e está voltando para casa.

Toda feira, de pesquisas ou não, pode acabar produzindo muito barulho por um resultado que, na prática, já ocorreu.

Jorge Gama é advogado e ex-deputado federal.

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