*Jorge Gama
O ex-senador, diplomata e economista Roberto Campos nos deixou uma frase que atravessa gerações e continua atual: “O subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos”.
A reflexão talvez revele tanto sobre o improviso quanto sobre o próprio subdesenvolvimento. No Brasil, a cultura do improviso costuma ser celebrada como expressão de criatividade e, em muitas situações, essa associação é justa. Mas criatividade e improvisação não são a mesma coisa.
Quando Ronaldinho Gaúcho encantou o mundo com sua genialidade dentro de campo, suas jogadas mais inesperadas não eram fruto do acaso. Eram resultado de talento, disciplina, treinamento e dedicação. O improviso era apenas a manifestação visível de uma preparação construída ao longo do tempo. A criatividade, quando produz resultados duradouros, raramente nasce da improvisação permanente.
Essa distinção é fundamental para compreender os desafios brasileiros. Na vida das nações, o improviso pode resolver emergências, mas não constrói o futuro. Nenhum país alcançou desenvolvimento consistente sem planejamento, objetivos claros e capacidade de execução.
O Brasil precisa — e pode — se planejar. Precisa construir um Projeto Nacional fundamentado na democracia, no Estado de Direito, na soberania nacional, no desenvolvimento econômico e na melhoria das condições de vida da população. Um projeto sustentado pela liberdade política, pelo respeito às instituições e pela valorização do cidadão como protagonista da vida pública.
Um projeto que permita compreender uma verdade simples: o Estado pode muito, mas não pode tudo. O desenvolvimento de uma sociedade depende da ação do poder público, mas também da iniciativa, da responsabilidade e da participação dos cidadãos. Quanto mais equilibrada for essa relação, mais forte será a democracia e menor será o espaço para a opressão e os privilégios.
Precisamos de objetivos permanentes que sobrevivam aos governos e às disputas eleitorais. Precisamos de consensos mínimos em torno de temas essenciais, capazes de funcionar como referências estáveis para o desenvolvimento nacional. Não se trata de eliminar divergências — próprias da democracia —, mas de construir convergências em torno de princípios fundamentais.
Em vez do relativismo político que frequentemente favorece interesses circunstanciais e produz instabilidade institucional, o Brasil necessita fortalecer uma cultura de compromisso com metas de longo prazo. Uma cultura baseada mais em princípios do que em oportunidades momentâneas.
Os céticos têm motivos para suas dúvidas. Décadas de promessas frustradas ajudam a explicar a desconfiança que se espalhou pela sociedade. Ainda assim, a reconstrução de um projeto nacional exige a participação de todos, inclusive daqueles que questionam sua viabilidade. Muitas vezes, as críticas mais rigorosas são as que oferecem as contribuições mais valiosas.
Nossa realidade institucional, marcada por tensões recorrentes e crescente fragilidade, exige coragem para enfrentar desafios que já não podem ser adiados. Precisamos reconhecer a necessidade de aperfeiçoar o pacto social que organiza a vida brasileira e adaptar nossas instituições às transformações do século XXI.
A Constituição de 1988 continua sendo o instrumento que garante as liberdades necessárias para esse debate. Dentro da ordem democrática, há espaço para discutir reformas, revisões e novos caminhos institucionais, sempre respeitando a vontade soberana da sociedade e os princípios republicanos.
Ao mesmo tempo, a revolução tecnológica e a expansão das redes sociais transformaram profundamente as relações humanas, econômicas e políticas. A inovação avança em velocidade inédita, alterando as relações de poder no cenário internacional. Em um mundo cada vez mais competitivo, a soberania nacional não se preserva apenas por declarações de intenção, mas pela capacidade de acompanhar as transformações e participar delas de forma ativa.
Apesar das dificuldades, o Brasil continua sendo uma das sociedades mais promissoras do mundo. Dispomos de recursos humanos, diversidade cultural, capacidade produtiva, criatividade e talentos em abundância. Temos todas as condições para construir um futuro melhor.
Ainda estamos em tempo de mudar o rumo da partida. O Brasil não precisa se resignar ao improviso permanente. Pode escolher o planejamento, a responsabilidade e a construção de objetivos comuns. Pode transformar potencial em realização. Pode, enfim, fazer do futuro uma obra da vontade nacional e não apenas uma expectativa adiada.
Porque o Brasil é, acima de tudo, uma nação que precisa e pode se planejar.
Jorge Gama é advogado e ex-deputado federal

















