*João Santana
A recente reafirmação, por parte da Organização das Nações Unidas, de que o tráfico
transatlântico de africanos escravizados constitui um dos maiores crimes da história da
humanidade, não é apenas um reconhecimento histórico — é um chamado à justiça. Trata-se
de uma validação internacional de uma dor que atravessa séculos, cujas consequências
permanecem vivas nas desigualdades sociais, econômicas e raciais que ainda marcam
profundamente países como o Brasil.
Sob a ótica do partido Afrobrasilidade, essa posição da ONU fortalece a compreensão de que o
racismo não é um fenômeno isolado ou meramente comportamental, mas sim um sistema
estruturado ao longo da história, sustentado por instituições, leis e práticas que marginalizaram
a população negra desde o período colonial até os dias atuais.
Nesse mesmo sentido, a decisão do Supremo Tribunal Federal ao reconhecer a existência do
racismo estrutural no Brasil representa um marco jurídico e político de enorme relevância. Ao
admitir que o racismo está entranhado nas estruturas da sociedade brasileira, o STF rompe
com a narrativa de negação histórica e abre caminho para a construção de políticas públicas
mais eficazes no combate às desigualdades raciais.
Para o Afrobrasilidade, essas duas posições — internacional e nacional — não são apenas
simbólicas: elas legitimam uma luta histórica travada por movimentos negros, intelectuais,
lideranças comunitárias e organizações comprometidas com a justiça racial. Elas confirmam
aquilo que sempre denunciamos: que os impactos da escravidão não ficaram no passado, mas
seguem reproduzindo exclusões no presente.
Esse reconhecimento fortalece nossa bandeira. Reafirma que nossa luta é justa, necessária e
urgente. Lutar contra o racismo estrutural é lutar por igualdade de oportunidades, por
dignidade, por acesso pleno à cidadania. É exigir que o Estado brasileiro assuma sua
responsabilidade histórica e implemente ações concretas de reparação e inclusão.
O Afrobrasilidade segue firme na defesa de políticas afirmativas, no fortalecimento da
educação antirracista, na valorização da cultura afro-brasileira e na construção de um país
mais justo.
A decisão da ONU e o posicionamento do STF não encerram o debate — pelo contrário,
ampliam nossa responsabilidade coletiva.
Mais do que nunca, é tempo de transformar reconhecimento em ação. É tempo de fazer da
memória um instrumento de mudança. É tempo de avançar.
*João Santana é jornalista e presidente executiva nacional do Partido Afrobrasilidade
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