Caso da gestante em Nilópolis expõe dilemas do atendimento emergencial

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

*Caroline Daitx

“Se o médico não tem segurança para atuar, ele não vai atuar” – A Prefeitura de Nilópolis está investigando uma denúncia feita pelo marido de uma gestante que não recebeu atendimento médico na UPA do bairro Cabuís. Segundo relatado pelo barbeiro Jony Bravo do Corte, o atendimento foi negado, mesmo a mulher estando com dores e com forte sangramento. A gestante perdeu o bebê e a profissional envolvida foi afastada temporariamente para apuração dos fatos. 

De acordo com a denúncia, o casal chegou à unidade por volta das 2h30 da madrugada, e a esposa expeliu o que ele descreveu como uma “bola de sangue”. Em vídeo publicado nas redes sociais, Jony aparece visivelmente abalado, clamando por socorro. As imagens mostram uma funcionária, identificada por ele como médica, fechando a porta de um consultório, o que teria representado a negativa de atendimento. O transporte da gestante para outra unidade só ocorreu após pressão de moradores que presenciaram a cena.

Diante da repercussão, a médica Caroline Daitx, especialista em medicina legal e perícia médica, trouxe uma análise técnica sobre o caso, destacando dois fatores cruciais: segurança e urgência no atendimento. “Se o médico não tem segurança para atuar, ele não vai atuar. Isso não é opinião, é protocolo. Inclusive em atendimentos pré-hospitalares em áreas de acidente, quando há risco de violência, a orientação é clara: o profissional não deve intervir até que a segurança esteja garantida.

A especialista ressalta, no entanto, que o caso envolvia uma gestante em sofrimento intenso, o que exige atendimento imediato. “Quando segurança e urgência entram em conflito, a equipe médica deve acionar recursos externos — como apoio policial ou ambulância, isto é, se não houver outro profissional disponível para assumir o atendimento”.

O que não pode é a paciente ficar sem assistência. E aqui é importante dizer: não é apenas responsabilidade da médica. A instituição também tem dever de estruturar protocolos, garantir segurança e dar suporte à equipe”, afirma Daitx.

A médica alerta que o afastamento da profissional pode parecer uma resposta rápida, mas não resolve o problema estrutural. Segundo ela, somente uma perícia médica independente pode esclarecer o que de fato ocorreu. “Casos assim não podem terminar apenas em manchete ou punição. Precisam virar aprendizado. E é a perícia médica que pode transformar dor em mudança.

Para a especialista, a sociedade deve cobrar não apenas responsabilização individual, mas também revisão dos fluxos de atendimento, protocolos de segurança e suporte institucional para que tragédias como essa não se repitam.

Caroline Daitx: médica especialista em medicina legal e perícia médica. Possui residência em Medicina Legal e Perícia Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou como médica concursada na Polícia Científica do Paraná e foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná. Pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do paciente. Atua como médica perita particular, promove cursos para médicos sobre medicina legal e perícia médica.  CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais – CAEPE, Perícia Médica Popular e Medprotec. Autora do livro “Alma da Perícia”.

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca nenhuma notícia importante. Assine nosso boletim informativo.

Publicidades

error: Conteúdo protegido!