
Fotos: Divulgação / ComCausa
Há exatamente 12 anos em Nova Iguaçu e Queimados, 29 pessoas inocentes eram executadas por policiais militares. A ‘Chacina da Baixada’, a maior da história do estado do Rio, continua a ser lembrada pela sociedade. A ComCausa, em parceria com outros movimentos e familiares das vítimas estão promovendo uma semana de ações pela valorização da vida. Na data em que aconteceu o massacre, como em todos os anos, uma caminhada e jornada de valorização da vida serão feitas hoje.
As atividades começaram pela inauguração do núcleo do Centro de Referência em Direitos Humanos da ComCausa, no último dia 27. No local, há um espaço para atendimento de vítimas das violências em parceria com o Instituto ObsevaSUAS.
No decorrer da semana, foram enviadas propostas de políticas públicas de prevenção da violência para os novos prefeitos da Baixada Fluminense, além de projetos de Lei para as Câmaras de Vereadores. Também estão sendo promovidas duas exibições, a vídeo cobertura dos dez anos da chacina da Baixada produzido pela ComCausa no Seminário “Mães e Famílias Vítimas da Violência do Estado em Defesa da Vida” na Diocese de Nova Iguaçu, ontem à tarde, além da exibição inédita na Baixada, do “A Queima Roupa”, documentário que investiga a violência e a corrupção policial praticadas no Rio de Janeiro nos últimos 20 anos na Unigranrio, dia 6 de abril, às 19h.
Como acontece desde há doze anos, no dia 31 de março será feita mais uma caminhada que passará nos locais onde as pessoas foram assassinadas em Nova Iguaçu, saindo às 10h da Via Dutra e terminando no bairro da Cerâmica, bairro com maior número de mortes.
“A mudança no perfil da violência é de grande preocupação. Com a reconfiguração do negócio do crime após a implantação das UPPs, temos tido aumento considerável na violência na Baixada. Cabe a sociedade e aos novos gestores públicos municipais pactuarem para desfazer ou inverte o espiral de violações com políticas responsáveis de redução das violências”, afirmou Adriano Dias, fundador da ComCausa.
Entre os acusados estão quatro policiais militares que foram condenados pelos crimes de homicídio, tentativa de homicídio e formação de quadrilha. Um PM foi absolvido e outro morto em 2006, por auxiliar a investigação. Outro militar foi condenado por formação de quadrilha e já cumpriu a pena.
A insatisfação dos policiais com a linha-dura imposta nos batalhões da PM na Baixada, principalmente o 15º BPM (Duque de Caxias), onde o comandante era o coronel Paulo César Lopes, teria sido o estopim para a explosão de violência. Antes da barbárie, ele havia afastado 60 policiais militares, presos durante a operação Navalha na Carne.
O grupo de militares foi flagrado por câmeras de segurança e preso. No dia seguinte, outros quatro policiais, com a intenção de desestabilizar o comando do batalhão de Caxias, se reuniram num bar da Rua Dom Walmor, em Nova Iguaçu e, num período de uma hora e meia, percorreram 25 quilômetros de carro e assassinaram quem estava pela frente. Das 29 vítimas, oito eram adolescentes. Os PMs dispararam mais de cem tiros.
Outras matanças que marcaram a região
Desde a Chacina da Baixada, pelo menos outras três ganharam repercussão semelhante. Foram as Chacinas do Éden, em São João de Meriti, em 2010; da Chatuba, em Mesquita, em 2012; e a do Parque Paulista, em Duque de Caxias, em 2014. Juntas, elas deixaram 20 mortos.
Em 24 de outubro de 2010, um grupo de pessoas estava em uma festa, em frente a um bar, no Éden, em São João de Meriti, quando homens armados passaram de carro atirando. Seis pessoas morreram e outros nove ficaram feridas.
O crime foi atribuído ao traficante Vinícius Anselmo de Araújo da Luz, o Vinicinho Jogador, que era um dos líderes da favela do Chapadão, na Pavuna. Segundo a polícia, o alvo era o atual namorado de uma mulher que o traficante já tinha se relacionado. Ele foi preso no ano seguinte durante uma operação da Polícia Militar.
Dois anos depois, nove pessoas morreram na Chacina da Chatuba. Um grupo de adolescentes foi até uma cachoeira dentro do Parque Gericinó, em Mesquita, e foi surpreendido por traficantes. Seis jovens foram executados por morar em uma comunidade que era dominada por um grupo rival. Outras três pessoas foram mortas por testemunhar o crime.
Em outubro de 2014, cinco pessoas foram executadas em um bar por um grupo de homens encapuzados no Parque Paulista, em Duque de Caxias. Eles foram abordados, postos de frente a um muro e fuzilados. Três morreram no local e outros dois no hospital. Apenas um adolescente de 12 anos sobreviveu.
De 11 denunciados, apenas seis foram a julgamento
Dos 11 policiais militares presos preventivamente e denunciados pelo Ministério Público, apenas seis foram levados a julgamento. Um foi assassinado e os outros não tiveram a acusação aceita pela Justiça, por falta de provas. Entre os anos de 2006 e 2009, foram condenados pelos assassinatos, pela tentativa de homicídio do sobrevivente e por formação de quadrilha, os soldados Carlos Jorge de Carvalho e Júlio César Amaral de Paula, e também os cabos José Augusto Moreira Felipe e Marcos Siqueira Costa. Todos estão no Complexo Penitenciário de Bangu. A soma das condenações chega a mais de dois mil anos de prisão. O único absolvido pelo júri foi o cabo Inovei de Souza.
O soldado Fabiano Gonçalves Lopes foi condenado a sete anos por formação de quadrilha e já cumpriu pena.
Em outubro de 2006, um dos policiais denunciados, que iria responder em liberdade pelo crime de formação de quadrilha por estar colaborando com as investigações, foi assassinado em uma emboscada. O cabo Gilmar da Silva Simão foi executado com mais de 15 tiros após prestar depoimento. Ele era apontado como peça-chave para a elucidação do caso. Em um dos depoimentos, alegou que os outros PMs foram vistos executando as vítimas da chacina.
Em novembro do mesmo ano, Marcos Siqueira Costa foi esfaqueado oito vezes no Batalhão Especial Prisional (BEP), onde aguardava preso por seu julgamento. Ele sobreviveu. À época, a investigação da polícia indicou que os responsáveis pelo atentado foram os também acusados pela chacina Carlos Jorge de Carvalho e José Augusto de Moura Felipe.
















