
Foto: Ivan Teixeira
A emergência do Hospital da Mulher Heloneida Stuart, em São João de Meriti, amanheceu fechada. Ontem, tapumes foram colocados por funcionários da unidade na entrada do setor. Segundo pacientes, eles acabaram sendo retirados por ordem da Polícia Militar. Entretanto, um cavalete foi colocado na porta da emergência. Cartazes informavam que “Devido a escassez de recursos, a emergência desta unidade encontra-se fechada”. A casa de saúde também sofre com a falta de pagamentos de funcionários e de escassez de recursos. Esta é a realidade de não só do Hospital da Mulher de Meriti, mas de diversas outras unidades.
Pelas redes sociais, funcionários e pacientes reclamaram da falta de estrutura do Hospital da Mulher. “Estamos sem materiais para trabalhar. Estamos aqui dentro trabalhando e dando nosso melhor. Mas ‘tá’ muito difícil”, desabafou uma funcionária. “Em março deste ano ganhei meu filho na unidade. Fui muito bem atendida. No começo de abril meu filho ficou internado também por cinco dias e tive total acompanhamento e suporte. Um hospital bem equipado e estruturado como este estar fechado é um absurdo. O Governo está acabando com tudo. Onde as mulheres e mães vão poder ‘se consultar’? Se quase todos eles estão fechando?“, questionou outra internauta.
Segundo uma funcionária da unidade, a direção decidiu fechar as portas por preocupação com infecção hospitalar. “A falta de material fez com que a direção decidisse fechar. Não temos material para esterilização e estamos preocupados com infecção hospitalar”, relatou a funcionária.

Foto: Ivan Teixeira
Sabrina Carvalho, de 29 anos, vivencia desde setembro o empenho dos médicos para manter a unidade em funcionamento. “A minha filha está internada há três meses. Os médicos estão fazendo de tudo, têm boa vontade, mas falta material e estão sem receber. Minha filha ainda vai continuar aqui, mas novas pacientes não poderão ser atendidas”, lamentou.
O Hospital da Mulher é referência no atendimento as grávidas de alto risco. Além da Baixada Fluminense, atende mulheres de todo o Rio de Janeiro desde março de 2010, quando foi inaugurado. “É uma pena. Este hospital é referência no tratamento de Gravidez Molar. Minha filha pode piorar e morrer por falta de atendimento que era semanal”, contou a acompanhante de uma paciente. Gravidez Molar é uma rara complicação da gestação que ocorre quando algo dá errado durante o processo de fertilização. Em uma gravidez normal, o óvulo fertilizado contém 23 cromossomos do pai e 23 da mãe. Em uma gestação molar completa, o óvulo fertilizado não possui cromossomos da mãe, e os do espermatozoide do pai são duplicados.
Fechamento de unidades estaduais lota leitos na Baixada

Foto: Divulgação/PMNI
A crise financeira do Estado afeta também as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Das 29 UPAs administradas pelo Estado, pelo menos 15 passam por problemas semelhantes. Segundo pacientes e funcionários, com salários atrasados desde novembro e sem receber a segunda parcela do 13º, médicos e enfermeiros entraram em greve há cinco dias e, sem alternativa, doentes passaram a buscar socorro em hospitais, que também enfrentam dificuldades causadas por falta de pessoal e recursos.
O Hospital Geral de Nova Iguaçu (Hospital da Posse) enfrenta uma grande superlotação com o fechamento de emergências das unidades estaduais. Segundo a assessoria da unidade, somente no último domingo (20) o HGNI realizou 14 cirurgias de fratura exposta e outras seis estão na fila de espera. São acidentados de toda a parte da Baixada Fluminense, da Dutra, e também da cidade do Rio. “O hospital está vivendo o caos com a enorme sobrecarga no atendimento em decorrência do fechamento da emergência de outros hospitais”, declarou o diretor do HGNI, Joe Sestello.
Ainda segundo a assessoria do HGNI, em média, são realizados 15 mil por mês (adulto e pediátrico), absorvendo pacientes de municípios da Baixada e ainda os acidentados da Rodovia Presidente Dutra em um trecho de quase 170 quilômetros. Deste total, cerca de 50% são de cidades vizinhas, como Belford Roxo, São João de Meriti, Queimados, Japeri, Mesquita, entre outros. “Só nos últimos dois meses (novembro e dezembro – até às 18h de domingo) a unidade internou 2.200 pacientes. No mesmo período do ano passado foram 1.900 internações. Vale enfatizar que além do aumento na demanda, a gravidade dos pacientes que chegam na unidade também é um fator importante, pois exige mais do hospital, na questão do atendimento de alta complexidade e disponibilidade de leitos de UTI”, informou.
Nas últimas duas semanas, com o atendimento restrito das Unidades de Pronto Atendimento (UPA): Nova Iguaçu (duas UPAS), Mesquita, Belford Roxo e Queimados, por exemplo, houve um aumento em cerca de 40% no total de atendimento do Hospital da Posse. O Hospital da Saracuruna, em Duque de Caxias, também está com restrição no atendimento da emergência, o que está impactando diretamente o aumento no fluxo do HGNI.
Paralisação no Melchiades Calazans
Com o salário de novembro atrasado e sem receberem a segunda parcela do 13º, funcionários do Hospital Estadual Vereador Melchiades Calazans, em Nilópolis, prometem fazer uma paralisação na manhã desta quarta-feira. A manifestação está programada para as 10h.
“É um protesto pacífico. Queremos apensar demonstrar nossa indignação com a falta de pagamento e o descaso do Estado com a Saúde. Estamos nos programando para paralisar, mas sem afetar a maternidade e as pacientes, pois elas não têm culpa do caos que a Saúde vive”, disse uma funcionária da unidade.
Falta de repasse ao Fundo Estadual de Saúde
Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde informou que o Hospital Estadual da Mulher Heloneida Studart está aberto, no entanto o atendimento está restrito aos casos mais graves. “É importante deixar claro que os pacientes internados na unidade permanecem recebendo assistência médica”, disse. A secretaria ainda salientou que diante da crise financeira do Estado, vem reunindo esforços, dia a dia, junto às secretarias municipais de saúde, ao Ministério da Saúde, outros órgãos do Governo do Estado e até à iniciativa privada para manter suas unidades funcionando no intuito de minimizar ao máximo possível os transtornos à população e restabelecer os serviços eventualmente suspensos ou restritos. Os principais problemas encontram-se nos hospitais. “Toda movimentação feita acontece no intuito de buscar alternativas e soluções para cumprir com suas responsabilidades financeiras. O que inclui pagamento de fornecedores e Organizações Sociais de Saúde e, consequentemente, seus serviços terceirizados. O cenário só deverá se normalizar, no entanto, mediante repasses para o Fundo Estadual de Saúde”, complementou.
Por: Gabriele Souza (gabriele.souza@jornalhoje.inf.br)
















