Registro feito no centro de Nova Iguaçu chama a atenção às vésperas do Halloween; simetria do desenho nas duas asas indica origem genética.
Quem olha rápido para a foto feita entre as folhas verdes de uma árvore pode achar que é montagem de Dia das Bruxas. No meio da asa marrom e amarela de uma grande mariposa-imperial (Eacles imperialis), o encontro das manchas forma o desenho exato de um crânio humano, com as duas órbitas dos olhos e o maxilar bem definidos.
O flagrante foi feito pelo fotógrafo Luiz Felipe Regaço na manhã de 22 de junho deste ano, bem no centro de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Mas o que torna a imagem ainda mais incomum do que a estampa de Halloween é o que acontecia naquele instante: o inseto não estava sozinho.



Escondida logo atrás dele na mesma folha estava a fêmea da espécie, de tom mais amarelado. O casal foi fotografado em pleno acasalamento — o que significa que, naquele exato momento, o macho passava adiante os genes responsáveis pelo desenho curioso em suas costas.
Reflexo nas folhas e corrida contra o relógio
Encontrar esses animais no meio do movimento urbano já é, por si só, um golpe de sorte. As mariposas desse grupo estão entre as maiores do mundo e costumam sumir das grandes cidades por causa da ausência de árvores densas e do excesso de luzes artificiais, que desorientam o voo noturno.
Curiosamente, foi um detalhe luminoso do próprio ambiente que parece ter ajudado a produzir a cena. Durante a noite, um foco de luz artificial reflete diretamente nas folhas daquela árvore, o que deve ter atraído o macho e a fêmea para o mesmo ponto antes do amanhecer, mostrando que esses insetos ainda resistem no centro da cidade.
Para quem fotografa natureza, o clique também representa uma janela de tempo minúscula. Depois que sai do casulo, a mariposa-imperial adulta vive menos de uma semana. Ela sequer tem boca para se alimentar: sobrevive apenas com a reserva de energia que acumulou quando era lagarta, com a única missão de encontrar um parceiro, cruzar e morrer logo depois. Esbarrar com o inseto de asas intactas e justamente durante a cópula, que dura algumas horas, é uma combinação rara de fatores.
Loteria genética
A famosa “mariposa-caveira” do cinema — aquela que estampa o pôster do filme O Silêncio dos Inocentes (1991) — é de outra espécie (Acherontia atropos), não existe no Brasil e carrega a marca no corpo, não nas asas. No caso do exemplar brasileiro, a figura surgiu pelo fenômeno da pareidolia, que acontece quando o nosso cérebro reconhece rostos ou formas familiares em padrões da natureza.
Nas fotos feitas de perfil, a caveira parece ser um detalhe isolado de uma asa só. Já os cliques feitos de costas revelam a pista mais importante para a biologia: o desenho se repete exatamente igual dos dois lados do inseto.
Essa simetria prova que a mancha não foi causada por um machucado ou falha na hora de sair do casulo, mas sim pela genética daquela mariposa, que juntou as manchas escuras naturais da espécie com a borda amarela.
Como o casal estava se reproduzindo na hora da foto, fica a dúvida se a árvore vai ganhar uma geração inteira de “mariposas-caveira”. Na prática, funciona como uma loteria. Como o desenho das asas depende da mistura de vários genes do pai e da mãe, os filhotes herdam a tendência de ter manchas parecidas e unidas, mas nem todos vão nascer com um crânio tão certinho quanto o do pai. Ainda assim, a receita genética dessa raridade já foi passada para a frente.

















